NARRATIVA CLÁSSICA OU DESIGN CLÁSSICO:
Origem, Propósito E Utilização
INTRODUÇÃO
Você
já leu aos livros da saga Harry Potter ou assistiu aos filmes? E quanto às
sagas Jogos Vorazes, Divergente, Senhor dos Anéis e Crepúsculo? A sua infância
foi marcada por alguma animação da Disney, da Pixar ou da Dream Works? Talvez
você seja fã de super-heróis, como os personagens da Marvel ou da DC, ou, quem sabe,
prefere os clássicos de ação como Star Wars, 007 e Missão Impossível. Talvez
você seja fã de séries e goste de varar a madrugada maratonando vários
episódios em sequência, provavelmente de séries como Game Of Thrones, Breaking
Bad, Avatar: The Last Airbender, The Big Bang Theory ou Grey’s Anatomy.
Seja
qual for a sua preferência, todos os títulos que eu mencionei logo acima são,
em sua essência, histórias de grande sucesso, mas você sabia que há uma coisa
em comum entre todas elas?
Independente
se estamos falando dos livros, filmes ou séries, todas essas histórias seguem o
mesmo modelo estrutural narrativo, isto é, a mesma forma de organizar e
estruturar suas histórias. Esse modelo existe há, pelo menos, vinte e cinco
séculos e, até hoje, é o modelo mais querido e familiar aos seres humanos por
ser tão amplamente utilizado e inerente à cultura humana. Esse modelo é
conhecido como Narrativa Clássica ou Design Clássico, e ele é muito utilizado
por diversos escritores e roteiristas na composição de suas obras. Mas por que
esse modelo existe? Qual a sua origem? E por que, mesmo vinte e cinco séculos
depois, ele ainda é tão utilizado? Pois bem, é para responder a essas perguntas
que abordaremos sobre essa estrutura narrativa no artigo de hoje.
A ORIGEM DA NARRATIVA CLÁSSICA
Para
que possamos entender melhor a Narrativa Clássica, primeiro precisamos explorar
sua origem e formação. Para isso, voltemos no tempo até a época de Aristóteles,
um dos primeiros contribuintes à Narratologia, o campo de estudos das
estruturas narrativas. Em sua obra “Poética”, Aristóteles analisou as tragédias
gregas que eram encenadas em festivais religiosos politeístas da época e,
graças às suas constatações, definiu muitas das bases que hoje formam os
princípios da Narrativa Clássica.
Um dos
primeiros apontamentos feitos por Aristóteles foi de que as narrativas das
tragédias gregas eram constituídas de três partes: prólogo, episódio
e epílogo (hoje, definidos como começo, meio e fim, respectivamente).
Essa análise da divisão da narrativa em três partes foi essencial para,
futuramente, definir os vários modelos narrativos propostos por diversos
autores e estudiosos do século XX, como Joseph Campbell e Christopher Vogler,
que difundiram o modelo do Monomito ou a Jornada do Herói; Syd
Field e sua proposta da Estrutura de Três Atos; Blake Snyder e seu Beat
Sheet; e Robert McKee e sua Arquitrama.
Além
disso, outra contribuição de Aristóteles foi identificar a finalidade (telos)
desse modelo estrutural. Ao analisarmos a sociedade da época, percebemos que a
sociedade humana, como conhecemos hoje, ainda estava em processo de formação.
Muitos dos conceitos que hoje são comuns para nós, como democracia, cidadania,
direito, leis, Estado e governo, ainda estavam se consolidando na época. A
forma como a sociedade grega se organizava era muito diferente da de hoje, e
uma lei comum da época era “Olho por olho, dente por dente”, ou seja, a justiça
era baseada na reciprocidade direta das ações cometidas.
Para
educar e ensinar a plateia a conviver em sociedade e construir coletivamente os
conceitos de certo e errado, as tragédias gregas eram organizadas de forma a
promoverem no público uma ideia consensual de moralidade. Nessas tragédias, os
personagens das histórias passavam por uma sequência de eventos desencadeados
por uma fatalidade conhecida como “erro fatal”, na qual cometiam uma grande
infração que, ao final da narrativa, os punia severamente ou os matava. Era
nesse momento de punição ou de morte, identificado por Aristóteles como catarse
(hoje chamado de clímax), que um grande impacto emocional era provocado no
público, fazendo-os absorver os ensinamentos e aprendizados vivenciados pelos
personagens da trama.
Aristóteles
observou que a estrutura dessas tragédias era constituída de forma a promover
esses ensinamentos de valores para o público e, portanto, as narrativas eram
organizadas de forma simples, didática e causalmente conectada, de forma a
entreter o público e fornecer uma experiência de aprendizado por meio da
história. A influência de Aristóteles se estendeu ao longo dos séculos,
influenciando teóricos e narradores em suas construções de histórias. A
aplicação de seus princípios ajudou a moldar a Narrativa Clássica em uma
ferramenta poderosa para o ensino e a transmissão de valores morais, ao mesmo
tempo que proporcionava entretenimento.
JOSEPH CAMPBELL E A JORNADA DO HERÓI
Muitos
séculos depois de Aristóteles, Joseph Campbell, um antropólogo e mitologista,
publicou sua obra “O Herói de Mil Faces” em 1949. Baseando-se na obra de
Aristóteles e nos estudos da psicanálise de Sigmund Freud e Carl Jung, Campbell
analisou vários mitos, lendas e, até mesmo, diversos contos religiosos, e
encontrou em suas análises um modelo narrativo seguido por todas essas as histórias
estudadas. Nesse modelo, Campbell percebeu que todas essas narrativas promoviam
uma jornada arquetípica, onde um único protagonista passava por uma sequência
de eventos que promoviam nele uma transformação psicológica e/ou emocional.
Esse
modelo foi chamado por Campbell de “Monomito”. Mono no sentindo de único, e
mito no sentido de enredo, portanto, “Monomito” tinha o significado de “Enredo
de um só”. Em seu modelo narrativo, Campbell propôs uma estrutura em dezessete
etapas onde um protagonista, com algum tipo de imaturidade no começo da
história, passava por uma série de eventos organizados de forma lógica e
causal, obrigando o personagem a enfrentar uma aventura em um mundo especial
que o tirava de sua zona de conforto e, ao final da narrativa, essa cadeia de
eventos promovia nele uma grande mudança de caráter que se consolidava em sua
transformação emocional.
Desse
modo, Campbell propôs um modelo narrativo cuja finalidade envolvia promover uma
sequência lógica e causalmente conectada de eventos que, a cada etapa, permitia
ao personagem amadurecer e, com isso, mantinha a proposta original defendida
por Aristóteles de uma história clássica que entretinha enquanto ainda ensinava
moralmente. Anos mais tarde, esse modelo de Campbell foi amplamente utilizado
por diversos teóricos e escritores, que ao passar dos anos, refiram esse modelo
e propuseram novas formas de estruturas baseadas no Monomito de Campbell.
Entre
eles, podemos citar George Lucas, criador de Star Wars, que utilizou o modelo
de Campbell para conceber a criação de sua franquia mais famosa, e Christopher
Vloger, roteirista e analista de roteiros da Disney, que após analisar vários
roteiros e compará-los com os ensinamentos de Campbell, condensou todos esses
ensinamentos em seu livro “A Jornada do Escritor”, onde propôs o famoso modelo
dos 12 Passos da Jornada do Herói, estrutura muito conhecida e utilizada,
principalmente no Cinema Hollywoodiano.
DA TRÁGIA GREGA AO CINEMA HOLLYWOODIANO
Com a
chegada do cinema, os filmes, especialmente os produzidos em Hollywood,
acabaram se apropriando dos ensinamentos deixados por Aristóteles e Campbell, e
aplicaram o modelo narrativo clássico na estrutura de seus filmes. O motivo
disso se deve à duas razões: a simplicidade desse modelo estrutural e o caráter
industrial do cinema hollywoodiano.
Sobre
a simplicidade, vale ressaltar que a Narrativa Clássica é pautada em três
princípios fundamentais: Moralismo, Didatismo e Causalidade
Lógica.
- Moralismo: Toda
a Narrativa Clássica tem como propósito promover ao público algum ensinamento
de valor ou moral universal, seja esse ensinamento uma questão de caráter ou
uma mensagem de vida. Exemplos clássicos de ensinamentos morais promovidos por
filmes com essa estrutura, temos: Frozen (Que ensina sobre a importância de não
temer a si mesmo), Whiplash (Que aborda sobre a toxidade da busca pela
perfeição), Ratatouile (Que ensina sobre não se limitar por sua origem), entre
outros;
- Didatismo: Toda
estrutura de Narrativa Clássica trabalha com elementos didáticos que são reiterados
ao decorrer dela. Isto quer dizer que toda história de narrativa clássica
trabalha com os mesmos elementos durante toda sua duração, sem nunca mudá-los
ou alterá-los. Assim sendo, a história sempre manterá os mesmos personagens e
seus papéis (O protagonista sempre será o protagonista), o conflito é o mesmo
do começo ao fim, apenas aumentando em intensidade, os cenários se repetem
frequentemente (como é o caso das Sitcons americanas, que mantém os personagens
nos mesmos cenários), e o tema da narrativa é sempre reforçado a cada instante
(muitas vezes, o tema ou mensagem está atrelado ao ensinamento e o arco de
desenvolvimento do protagonista, como é o caso de The Green Book que fala sobre
violência e racismo);
- Causalidade Lógica: Esse princípio
está ligado à ideia de continuidade. Todos os eventos de uma estrutura clássica
são interligados de modo que, o que acontece depois na história, é consequência
direta do que ocorreu antes. Assim sendo, à cada evento da história, uma consequência
interliga o próximo evento na história. Em termos de comparação, é como se cada
evento da história fosse uma engrenagem que, ao se movimentar, acaba gerando o
movimento da engrenagem seguinte. Os melhores exemplos desse princípio são
Jurassic Park e Batman: O Cavaleiro das Trevas, cujos eventos da trama que
acontecem são consequência direta de fatos que ocorreram anteriormente aos
personagens, como à fuga do T-Rex após a sabotagem do parque ou a transformação
do Duas Caras após a armadilha do Coringa;
Levando
esses princípios em conta, que mantém a Narrativa Clássica sempre trabalhando com
a simplicidade, isso nos leva à questão seguinte, que é o caráter industrial do
cinema hollywoodiano. Como os filmes de Hollywood são feitos para gerar enormes
receitas ao se comunicarem com um público amplo, a utilização da Narrativa
Clássica se dá justamente por seu caráter simples e facilmente reconhecível.
Como postulado por Campbell, diferentes culturas de vários povos, muitos dos
quais não tiveram contato, acabaram por estruturar suas lendas e mitos da mesma
forma, provando que, de fato, a Narrativa Clássica é um modelo reconhecível mundialmente
por qualquer público de qualquer país.
Assim
sendo, independente do país de exibição, a estrutura do filme se comunicará da
mesma forma com todo o público, garantindo que todos os expectadores tenham a
mesma experiência e sensação após assistirem ao filme. Basta apenas ver para os
grandes sucessos de bilheterias de franquias como a Marvel, DC,
Velozes&Furiosos e Star Wars para reconhecer esse potencial de comunicação
que a Narrativa Clássica exerce sobre diferentes povos e culturas.
Portanto,
a Narrativa Clássica, que nasceu das tragédias gregas com a finalidade educar socialmente
uma sociedade, se tornou uma ampla e forte estrutura narrativa graças à seu
caráter simples, princípios sólidos e sua grande facilidade em se comunicar com
um público amplo e diverso. Por isso, se você deseja se tornar um escritor ou
roteirista, e quer escrever uma obra de grande sucesso, busque compreender os
princípios e domine a estrutura narrativa clássica. Dessa forma, suas obras
poderão criar um forte apelo com o público e se perpetuar ao longo de muitas
gerações, como é o caso de sagas consagradas até hoje, como Harry Potter e Star
Wars e muitas outras.
REFERÊNCIAS
ARISTÓTELES. Poética. 7ª Edição. São
Paulo: Editora 34, 1 de janeiro de 2015.
CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. 2ª
Edição. São Paulo: Editora Pensamento, 3 de janeiro de 1989.
NARRATOLOGIA; GÓES, Bea. Por Que Existe A
Jornada do Herói? #Semanadajornadadoheroi Parte 1. Youtube, 13 de janeiro de
2020. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=PQ7pvCM_Ry8&list=PLKJFrTLaCSBJsrsL9gwrkbRWsQ-_43uDG&index=1>.

Comentários
Postar um comentário